Sinfonias de Pagode

É pagode sim, mas é sinfônica também. É música em sua essência, com a riqueza rítmica da Bahia em diálogo com todas as vertentes da música de concerto. É uma experiência musical não só para ouvir, mas para sentir e vivenciar. Assim nasce a Sanbone Pagode Orquestra.

Sinfonias de Pagode é o primeiro disco da Sanbone, orquestra arquitetada em 2007 pelo multi-instrumentista, compositor e maestro Hugo Sanbone. O álbum traz oito composições do próprio instrumentista, que teve mais de 20 músicos ao seu lado nas gravações, realizadas no Estúdio Massa Sonora, em Salvador.

Os primeiros acordes podem até causar alguma surpresa, mas é bem aí que mora o mérito das composições do maestro, que acrescenta, às claves rítmicas do pagode, superposições melódicas e harmônicas da música erudita.

As suas composições transformam as diversas tessituras melódicas e tratam de emoções e sensações. Em Sinfonia Número 7 de Pagode, Hugo traduz o movimento frenético de pessoas na Estação da Lapa - o maior terminal rodoviário de Salvador. A música acompanha a cadência do vai e vem nos dias de movimento e, ao mesmo tempo, transporta a audição para a solidão das noites e finais de semana na Lapa.

Na Sinfonia Número 11, o protagonista é o próprio maestro, que traz à tona o sentimento de desespero, angústia e agonia de quando quase se afogou no mar. A sua volta à vida se transformou em novas sensações de música.

Já na Sinfonia Número 3, o insight para compor um pagode, misturando groove arrastado com o samba de roda, surgiu de uma cena de filme de ação. Ou seja: tudo e qualquer coisa ao redor de Hugo Sanbone vira mote para surgirem quebradeiras de orquestra.

Nos concertos – e agora no disco – a Sanbone apresenta ao público uma autêntica investigação estética. A cada composição, desfaz as amarras do preconceito de quem encara o pagode como um estilo musicalmente pobre. Nas “sinfonias-quebradeira”, emerge a riqueza sonora do pagode baiano, com suas características polirítmicas e polifônicas em sintonia com o apuro e o preciosismo da música erudita.

Na trilha da Sanbone, caminham juntas as influências de Harmonia do Samba e Bach, Psirico e Stravinsky, É o Tchan e Beethoven. Está tudo lá, como uma simbólica ponte musical entre a Bahia e o mundo.

Financiado com recursos do edital Gregórios, da Fundação Gregório de Matos - FGM / Prefeitura de Salvador, o disco foi gravado e mixado por Richard Meyer no estúdio Massa Sonora, Salvador-BA e masterizado por Jim Fox e Mike Caplan, no estúdio Lion & Fox, em Washington DC, Estados Unidos, com direção do próprio Hugo Sanbone.

Deixe-se mergulhar no universo criativo da Sanbone Pagode Orquestra. E quando ficar em dúvida se deve contemplar como música clássica ou cair na quebradeira, fique à vontade. Pode curtir como quiser.

O Maestro

Quem ousaria dizer que a junção de música popular com erudita ia dar em Orquestra de Pagode?! Ele ousou: Hugo Sanbone, 41 anos, multi-instrumentista, compositor e idealizador da Sanbone Pagode Orquestra.

“Não vejo a música de maneira separada. Música é música, seja de carnaval, pagode ou música de câmara, e a gente manifesta como convém e compete a cada um, explica o maestro.

Idealizada em 2007, quando Hugo compôs a Sinfonia Primeira de Pagode, a Sanbone Pagode Orquestra se propõe a aplicar novas texturas sobre o pagode, apresentando criações que dialogam com a música erudita e o jazz.

A ideia de misturar música popular com peças sinfônicas está presente desde cedo no trabalho de Hugo, que iniciou seus estudos ainda garoto, com 9 anos, em um projeto social de uma filarmônica em Aracaju, sua cidade natal.

“Sempre pensei a música da maneira como penso hoje, mas, quando entrei na UFBA (em dezembro, ele conclui o Mestrado Profissional em Educação Musical), em 2013, pude refletir melhor sobre o meu processo criativo e fazer escolhas mais conscientes. As novas técnicas têm me ajudado numa atitude composicional, mas sem perder o processo criativo, sem sobrepor o novo conhecimento ao antigo, mas com mais técnica para trabalhar a estética do pagode”, destaca o músico.

Apresentado ao clarinete “por imposição do professor”, o então menino migrou para o trombone. “Achava o clarinete estranho. Pra contrariar, peguei o trombone, que estava largado lá, mas Deus sabe o que faz. Foi minha intuição, com certeza”, conta ele, que também aprendeu trompete e saxofone. “Eu tinha em minha mente que, quanto mais instrumentos eu soubesse tocar, mais oportunidades iria ter. Então, estudava para aumentar as minhas opções de atuação”.

Entre Sergipe e Bahia, onde fincou raízes em 1999, Hugo Sanbone já tocou em charangas, fanfarras, filarmônicas e bandas de pagode, salsa e forró – foi daí, inclusive, que surgiu a alcunha Sanbone: “É a junção de sanfona e trombone. Achei lindo, tanto na grafia quanto na sonoridade”, diz sorrindo. E foi justamente a convite de uma banda de forró, a Melaço de Cana, que Hugo migrou para Salvador.

De lá pra cá, acompanhou, em palco ou estúdio, artistas ou grupos como Ivete Sangalo, Carlinhos Brown, Maestro Zeca Freitas, Jau, Edson Gomes, Harmonia do Samba e Psirico. Hugo também fez parte da primeira formação da Orkestra Rumpillezz, de onde veio parte da inspiração para dar seu próprio passo rumo a um trabalho autoral.

“Para tocar bem, você precisa de técnica, foco e, principalmente, viver. Tocando, desenvolvemos várias habilidades, como a percepção, que a escola não pode te dar. Com isso, o seu banco de dados e sua memória musical vão sendo construídos”, defende o artista.

E é com esse olhar atento, sobre a música e as sensações que ela desperta, que Hugo compõe as suas sinfonias de pagode. “Minha inspiração é muito do lado musical, mas é também das manifestações que acredito que podem ser transformadas em arte”.

Para ele, qualquer situação pode virar razão para uma composição. “Às vezes, estou passando na rua, escuto um carro que deu uma freada e assustou alguém, já me gera uma sensação de expectativa e penso como seria interessante converter em música. Ou alguém que passa assoviando uma melodia bonita, duas pessoas conversando, uma pintura ou uma paisagem também podem acionar esse gatilho, esse clique”.

Conectado ao popular e ao erudito, Hugo trilha sua jornada no universo da música, sem se acorrentar a rótulos. E é dessa liberdade que vem a potência da Sanbone Pagode Orquestra.

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sanbonepagodeorquestra@gmail.com

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